O que diz aquilo que estamos vestindo sobre nossa época?
Vestimo-nos para melhor nos mostrar. Ocultamos mais ou menos nossos corpos para comunicar quem somos, como gostamos de estar no mundo. Revestimos, embalamos, envelopamos nossos corpos para deixar claro que somos agressivos ou delicados, enigmáticos ou diretos, complexos ou simples, diferentes ou padronizados. Valemo-nos de roupas porque queremos chamar a atenção, passar despercebido ou alguma coisa no meio do caminho.. E qualquer caso for o nosso desejo, está claro que não vestimos apenas roupa: vestimos ideias.
“(sobre a indumentária da época de Maria Antonieta) um ser quase imobilizado pelo ornamento da moda que já temia pela sua segurança”
Se você frequenta os blogs ou já leu alguns dos livros da Cris Guerra ou das meninas do Oficina de Estilo, poderia facilmente ter atribuído as primeiras linhas deste post a elas, acertei ?
Mas a frase é de Flávio de Carvalho, visionário e multiartista, falecido em 1973. É até difícil descrever e enumerar seu trabalho, tendo passado por áreas tão diversas - "arquiteto, engenheiro, cenógrafo, artista plástico, desenhista, antropólogo amador, antropófago ...". Entre todas estas ocupações, ele também foi responsável por textos considerados o primeiro estudo sobre moda produzida no Brasil. Um destes estudos, intitulado "A moda e novo homem", publicado originalmente no Diário de S. Paulo, entre março e outubro de 1956, traz alguns questionamentos muito interessantes sobre a moda e sua relação com a época/ contexto. Os desenhos que ilustram este post fazem parte desta série:
"A senhora Bloomer em 1851 passeando pelas ruas de Nova York, usando calças e fumando charuto. (...) Uma manifestação de feminismo que visava igualar a mulher ao homem. (...) Entre os direitos reivindicados em épocas recentes estão: direito de votar e ser votada, igualdade de direitos."
"Mulher elegante de 1911 usando calças lançadas pelas melhores casas de Paris (jupe-culotes). Uma manifestação de feminismo e de desejo de nivelamento ao homem"
"Desenho extraído de um modelo Transworld de 1956. A cintura se acha realmente situada nos joelhos em forma de crinolina, sendo a cintura do local anatômico quase inexistente. Colocando a cintura no joelho estabelece-se uma tendência para encompridar a mulher, fazendo-a parecer mais alta. Seria uma manifestação mista antiestética de voluptuosidade e feminismo?"
Estes são apenas alguns dos desenhos deste estudo, dá para ver mais e ler o artigo completo sobre neste link aqui. Só eu fiquei curiosa para saber o que Flávio de Cavalho pensaria sobre as transformações da moda a partir de 1956 até tudo que vestimos hoje, sobre os hipsters, a estética das mulheres fruta, os "dasluzismos" da mulherada rica e tudo mais .... Ou será que pouca coisa mudou desde lá ?





